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O piso nobre barroco da Biblioteca Joanina, estantes folheadas a ouro e um retrato do Rei D. João V sob um teto pintado, na Universidade de Coimbra. Acesso prioritário disponível

Uma História da Biblioteca Joanina

A encomenda barroca do Rei João V financiada pelo ouro do Brasil, o sistema de conservação com morcegos e uma biblioteca que sobreviveu três séculos em Coimbra.

Atualizado em junho de 2026 · Equipa de Concierge de Biblioteca Joanina Tickets

A Biblioteca Joanina nasceu do ouro, da ambição e de um rei que queria que o saber de Portugal fosse tão magnífico quanto o seu império. Construída entre 1717 e 1728 na Universidade de Coimbra — uma instituição cujas raízes remontam a 1290 — a biblioteca foi tanto uma afirmação como um depósito de livros: o conhecimento, com patrocínio real, merecia um interior tão esplêndido como qualquer igreja. O ouro do Brasil pagou por ela; madeiras exóticas atravessaram o Atlântico para a revestir; e uma colónia de morcegos foi, de certa forma, inscrita na sua sobrevivência a longo prazo. Três séculos depois, após revoluções, incêndios e guerras que noutros locais destruíram coleções comparáveis, a Joanina permanece notavelmente intacta, com os seus livros ainda nas estantes originais. Este guia traça a história da biblioteca — desde o rei que a encomendou até ao improvável sistema de conservação que ainda a protege, e o lugar que ocupa numa das universidades mais antigas do mundo.

Rei João V e o ouro do Brasil

A biblioteca deve o seu nome ao seu patrono: o Rei João V de Portugal, o 'Magnânimo', cujo reinado no início do século XVIII coincidiu com uma torrente de ouro e diamantes da colónia portuguesa do Brasil. Essa riqueza inesperada financiou uma vaga de construções extravagantes por todo o Portugal, e a Biblioteca Joanina foi um dos seus frutos mais orgulhosos. Encomendada pelo rei e construída entre 1717 e 1728, a biblioteca foi concebida não como uma modesta instalação académica, mas como um monumento — um interior barroco desenhado para impressionar visitantes e glorificar tanto a coroa como a universidade que servia.

A riqueza transparece em cada superfície. Madeiras nobres exóticas foram enviadas do Brasil para construir os dois andares de estantes; folha de ouro foi aplicada em varandas e arcos esculpidos; as estantes foram laqueadas com padrões chineses de chinoiserie, então na moda; e os tetos foram pintados em trompe-l'oeil ilusionista por hábeis artistas de Lisboa. Um retrato do próprio João V vigia o piso nobre, um lembrete de que a biblioteca era um monumento tanto ao rei como ao saber. O resultado é amplamente considerado a melhor biblioteca barroca de Portugal e um dos grandes interiores barrocos da Europa — um lugar onde os recursos de um império transatlântico, no auge da corrida do ouro portuguesa, foram investidos na arquitetura do próprio conhecimento.

Uma biblioteca construída para durar

Os construtores da Joanina incorporaram a preservação na própria estrutura do edifício. As paredes exteriores foram feitas extraordinariamente espessas — cerca de 2,1 metros — e a entrada da sala principal fecha com uma pesada porta de teca. Juntos, criam um ambiente quase selado que mantém a temperatura e a humidade notavelmente estáveis, pairando em torno dos 18–20°C durante todo o ano, independentemente da estação exterior. Numa era muito antes do controlo climático mecânico, este sistema passivo foi uma resposta sofisticada aos grandes inimigos do papel antigo: calor, humidade e as oscilações bruscas entre ambos que racham as encadernações e criam bolor. A mesma lógica explica porque o número de visitantes no interior é limitado e a porta se mantém quase sempre fechada: cada pessoa que entra traz calor e humidade que o edifício foi concebido para excluir.

Essa estabilidade é, em grande parte, a razão pela qual o acervo sobreviveu tão bem. Livros que teriam empenado, ganhado manchas de humidade ou apodrecido num espaço menos controlado resistiram aqui durante três séculos, muitos ainda nas estantes originais construídas para eles. O projeto da biblioteca tratou a proteção do conhecimento com a mesma seriedade que a sua exibição — o mesmo impulso que produziu os dourados e os tetos pintados também produziu as paredes espessas e a porta de teca. Esplendor e conservação foram, desde o início, duas faces do mesmo projeto régio, e é tanto a engenharia discreta como o ouro que mantiveram a Joanina intacta através de guerras e revoluções que destruíram bibliotecas comparáveis noutros locais da Europa.

Os morcegos — três séculos de conservação natural

Os guardiões mais célebres da Joanina são biológicos. Uma colónia de morcegos vive na biblioteca e sai à noite para se alimentar das traças, peixinhos-de-prata e outros insetos que, de outra forma, devorariam o papel, a cola e as encadernações de couro dos livros. Isto não é uma curiosidade, mas sim um sistema de conservação funcional, que opera há cerca de 300 anos, antecedendo em séculos os métodos químicos e de controlo climático de que os arquivos modernos dependem. A Joanina é uma das únicas duas bibliotecas no mundo conhecidas por depender de morcegos desta forma — a outra é a biblioteca do palácio real de Mafra, também em Portugal — o que torna este par uma contribuição distintamente portuguesa para a história da preservação de livros.

O acordo deixa um ritual diário visível para a equipa, embora não para os visitantes diurnos. Todas as noites, as longas mesas de leitura são cobertas com folhas de couro para as proteger dos morcegos durante a noite; todas as manhãs, as coberturas são retiradas e os chãos são limpos. É uma resposta surpreendentemente de baixa tecnologia para um problema que os arquivos modernos gastam fortunas a resolver, e perdura porque funciona: os insetos que destroem coleções comparáveis noutros locais são mantidos sob controlo por predadores que não pedem nada além de um lugar para se abrigar. Os morcegos são agora indissociáveis da identidade da biblioteca — uma peça de património vivo tanto quanto os próprios livros.

Uma das universidades mais antigas do mundo

A Joanina não está isolada, mas sim no coração de uma das universidades em funcionamento contínuo mais antigas do mundo. A Universidade de Coimbra remonta a 1290, quando foi fundada em Lisboa; após várias mudanças entre as duas cidades ao longo dos séculos seguintes, fixou-se definitivamente em Coimbra em 1537, ocupando o antigo palácio real — o Paço das Escolas — como seu núcleo. Durante grande parte da sua história, esta universidade foi a única em Portugal e moldou a vida intelectual, científica e administrativa do país durante séculos.

Essa longa continuidade foi o que a UNESCO reconheceu em 2013, ao inscrever a 'Universidade de Coimbra – Alta e Sofia' na Lista do Património Mundial. A designação honra não apenas a Joanina, mas todo o bairro histórico universitário — a Alta na colina e a Rua da Sofia na cidade abaixo — como um lugar que, ao longo de mais de sete séculos, tem sido um modelo e uma referência para o ensino superior em todo o mundo lusófono. A biblioteca, construída por um rei no auge do império, é o centro deslumbrante de uma instituição muito mais antiga e profunda.

Perguntas frequentes

Quem construiu a Biblioteca Joanina e quando?

Foi encomendada pelo Rei D. João V de Portugal — razão pela qual se chama 'Joanina' — e construída entre 1717 e 1728. Foi financiada em grande parte pelo ouro que então fluía do Brasil para Portugal e é considerada a mais bela biblioteca barroca do país.

Porque se chama Biblioteca Joanina?

O nome homenageia o seu patrono real, o Rei D. João V de Portugal, que a encomendou e pagou no início do século XVIII. Um retrato do rei preside ao piso nobre da biblioteca que ele construiu.

Como foi financiada a biblioteca?

Em grande parte pelo ouro e pela riqueza que chegavam a Portugal vindos da sua colónia do Brasil durante o reinado de D. João V. Esse maná financeiro pagou os dourados, as madeiras nobres brasileiras exóticas das estantes e os tetos pintados que tornam a biblioteca tão sumptuosa.

Como é que os morcegos protegem os livros?

Uma colónia de morcegos que vive na biblioteca sai à noite para comer as traças, os peixes-de-prata e outros insetos que, de outra forma, danificariam os livros — um sistema natural de controlo de pragas utilizado há cerca de 300 anos. A Joanina é uma das únicas duas bibliotecas no mundo conhecidas por usar morcegos desta forma, sendo a outra a de Mafra.

Porque é que os livros sobreviveram tanto tempo?

A biblioteca foi projetada para a preservação: paredes com cerca de 2,1 metros de espessura e uma pesada porta de teca mantêm o interior perto dos 18–20°C durante todo o ano, com humidade estável. Combinado com o controlo de insetos pelos morcegos, isto protegeu o acervo durante três séculos.

Quantos anos tem a Universidade de Coimbra?

A sua fundação remonta a 1290, quando foi estabelecida em Lisboa, e fixou-se definitivamente em Coimbra em 1537. É uma das universidades em funcionamento contínuo mais antigas do mundo, tendo sido inscrita pela UNESCO em 2013.

Quando é que a universidade se tornou Património Mundial da UNESCO?

Em 2013, quando a UNESCO inscreveu a 'Universidade de Coimbra – Alta e Sofia', reconhecendo o bairro universitário no topo da colina e a Rua da Sofia, abaixo, pelo seu papel centenário no ensino superior em todo o mundo lusófono.